A cidade e as bicicletas

As redes sociais estão cheias de comentários sobre uma publicação que saiu hoje  no Diário Oficial de São Paulo. A manchete dizia “Mais ciclistas, mais acidentes” e a matéria fala que não é recomendado que os ciclistas pedalem no trânsito de São Paulo (veja uma reportagem sobre o assunto aqui). A reportagem chega bem na hora em que se discute muito o papel da bicicleta na cidade como alternativa de deslocamento, e não apenas como lazer. Neste ano, a Revista da Mooca já publicou duas matérias com o tema das bicicletas. Uma fala sobre a ciclorrota da Mooca, implantada esse ano no bairro justamente para estimular o compartilhamento da  via entre carros e bikes, e a outra sobre a organização de passeios ciclísticos no bairro. Abaixo, reproduzimos as duas matérias. E você, o que acha sobre essa polêmica das bikes na cidade?

Trecho da ciclorrota da Mooca – Foto: Carol Serodio

BIKE NAS RUAS

Ciclorrota da Mooca tem 8 km e é um espaço de compartilhamento entre carros e bicicletas

Por Maisa Infante

Desde dezembro de 2011, os ciclistas que circulam pelas ruas da Mooca se deparam com algumas vias sinalizadas com desenhos de bicicleta no chão, além de placas indicando que aquelas vias fazem parte de uma ciclorrota. O projeto faz parte de uma política que ainda engatinha na cidade de São Paulo, de tentar tornar a metrópole de 11 milhões de habitantes um lugar no qual as bicicletas também possam ser usadas como meio de transporte.

Os 8 km da ciclorrota ligam o Centro Educacional da Mooca ao Sesc Belenzinho, mas o principal objetivo não é ser um trajeto que ligue um ponto ao outro, e sim identificar um espaço de compartilhamento entre os diversos veículos que circulam na rua. “As ciclorrotas legitimam algo que já está no Código Brasileiro de Trânsito, que é a possibilidade de compartilhamento da via entre carros e bicicletas”, explica Thiago Benicchio, diretor geral do Ciclocidade (Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo).

Se uma via não possui espaços exclusivos para bicicletas, que são as ciclovias ou ciclofaixas, as “magrelas” podem ocupar o mesmo espaço que os outros veículos. E tem mais: o código de trânsito coloca uma hierarquia de veículos, pela qual os maiores devem prezar pela segurança dos menores e ainda respeitar a distância mínima de 1,5m ao ultrapassar as bicicletas.

E em uma cidade de proporções tão grandes quanto São Paulo, o compartilhamento do espaço não tem sido uma tarefa fácil. Para quem usa a bicicleta no dia a dia, um dos principais problemas ainda é a falta de respeito dos motoristas de carros, ônibus e caminhões. “O ciclista já sabe que o carro está na rua, mas a população desconhece que a bicicleta também pode ficar na rua”, diz Thiago. E a ciclorrota mostra que sim, as bicicletas são bem-vindas e é preciso aprender a conviver com elas. “A sinalização oficializa a bike na rua e funciona como um impulso para o pessoal que tem medo de sair com a bicicleta por achar que vai ser mal recebido pelos motoristas. A ciclorrota cria uma situação onde o motorista não tem mais a desculpa de que as bicicletas não deviam estar lá”, diz Willian Cruz, ativista do Vá de Bike.

Segundo a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), as ciclorrotas são implantadas em ruas que permitem velocidade em até 40 km/h, e há algumas em ruas com velocidade máxima de 30 km/h. A escolha do percurso foi baseada no projeto desenvolvido pelo CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e proposto pela Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação e pelos polos de interesse ciclísticos e de lazer existentes nas regiões onde foram implantados.

Bike em São Paulo

Para muitas pessoas, escolher a bicicleta como meio de transporte em São Paulo é quase um suicídio, já que a cidade de grandes dimensões ainda privilegia os carros. Mas os ativistas pelo uso da bike acham que é preciso fazer um esforço para que essa cultura seja mudada. “A maioria das pessoas não vai usar a bicicleta para percorrer 30 ou 40 km por dia. Mas elas precisam ter o direito de fazer isso se quiserem. O uso mais comum é em alguns deslocamentos do dia. E toda cidade pode incorporar a bicicleta como ferramenta para os cidadãos, mas não existe uma receita pronta para isso, é preciso olhar as variáveis de cada lugar. Nova York também é uma cidade grande e usa muito a bicicleta; Copenhagen tem neve e o uso é intenso; São Francisco é uma cidade de montanha”, diz Thiago.

Sem dúvida, falta muito para que o uso das bicicletas em São Paulo seja mais intenso. Os problemas vão desde o compartilhamento da via até o estacionamento. Willian, que usa a bicicleta diariamente, conta que chegou a entrar em cinco estacionamentos diferentes até encontrar um que aceitasse a bike. “E só consegui porque o manobrista também ia de bicicleta e me deixou colocar a minha junto a dele. Olha que me dispus a pagar o mesmo valor que um carro para guardar a bike”.

Segurança

Se você se animou a pedalar, nem que seja para conhecer a ciclorrota, é bom ficar ciente de qual a forma mais segura de circular pelas ruas. Segundo os especialistas em bicicletas, o ciclista não deve andar no meio-fio, mas ocupar a faixa de rolamento de uma forma que se sinta seguro. Não trafegar pelo meio-fio é uma forma de ser visto e de ter para onde escapar no caso de algum acidente. “É importante que o ciclista ocupe a faixa de forma a se fazer visível”, diz Thiago. “A iluminação da bicicleta é muito importante porque o motorista precisa ver o ciclista de longe. Também é bom sinalizar o que se vai fazer (mudar de faixa, entrar em alguma rua etc.) com a mão. A comunicação com o motorista é fundamental para evitar acidentes”, completa Willian.

Você sabe a diferença entre ciclorrota, ciclovia e ciclofaixa?

Ciclovia da Radial Leste – Foto: Johann Almeida

Ciclovia  – É um espaço segregado para fluxo de bicicletas. Isso significa que há uma separação física isolando os ciclistas dos demais veículos. Essa separação pode ser através de mureta, meio fio, grade, blocos de concreto ou outro tipo de isolamento fixo. A ciclovia é indicada para avenidas e vias expressas, pois protege o ciclista do tráfego rápido e intenso.

Ciclofaixa – É quando há apenas uma faixa pintada no chão, sem separação física de qualquer tipo (inclusive cones ou cavaletes). Pode haver “olhos de gato” ou no máximo os tachões do tipo “tartaruga”, como os que separam as faixas de ônibus. Indicada para vias onde o trânsito motorizado é menos veloz.

Ciclorrota – É um caminho, sinalizado ou não, que represente a rota recomendada para o ciclista chegar onde deseja. Representa efetivamente um trajeto, não uma faixa da via ou um trecho segregado, embora parte ou toda a rota possa passar por ciclofaixas e ciclovias.

Fonte: www.vadebike.org

Veja as ruas pelas quais passa a Ciclorrota da Mooca

Rua Jaibaras, Av. Cassandoca, Rua Itaqueri , Rua da Mooca, Rua Leme da Silva, Rua Cuiabá, Rua Barretos, Rua Pereira Jacome, Rua Dr. João Inácio Teixeira, Rua Sapucaia, Rua Dr. João Batista de Lacerda, Rua Serra de Jaire, Rua Tobias Barreto, Rua Pe. Adelino.

 

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BIKE NA VEIA

Irmãos mooquenses organizam passeios ciclísticos para estimular o uso da bicicleta na cidade

Por Elizabeth Florido

Dois irmãos, uma paixão. A paixão pelas magrelas e tudo que a elas se refere. Nascida em 1994, a RVS Bike Quality é administrada pelos mooquenses Ricardo e Rogério Stipkovic que têm na bicicleta o carro chefe de suas vidas desde 1993. Eles poderiam dedicar-se apenas à loja que possuem na Siqueira Bueno, mas resolveram ir além com a ideia de mobilizar as pessoas por meio de passeios ciclísticos organizados em diversas datas, especialmente nos aniversários de bairro, começando pela Mooca, Belenzinho, Tatuapé, e mais recentemente, a Vila Prudente. “É importante ressaltar que se trata de uma equipe de voluntários que está em todos os passeios nos ajudando a coordenar, dividir os pelotões, enfim, prestar uma assistência no que for necessário”. E tudo isso tem um simples objetivo: criar um momento de lazer e descontração para a comunidade do bairro e regiões próximas. E para manter o assunto e a pedalada em dia, são promovidos passeios mensais: Pedalada de Domingo, que acontece todo primeiro domingo de cada mês, voltada para principiantes que irão percorrer um trajeto máximo de 8 km, e o Passeio Noturno, que acontece toda última quinta-feira do mês, para um pessoal mais veterano. Lembrando que todos os passeios promovidos pela RVS têm um cunho social, pois para participar é necessário contribuir com um quilo de alimento não perecível ou um agasalho.

Passeio Ciclístico na Avenida Paes de Barros, organizado pela RVS Bike

Bicicleta da vez

A bicicleta nunca esteve tão em alta na mídia, seja por motivo de segurança dos ciclistas e da fiscalização que a CET iniciou em maio, para coibir o desrespeito dos motoristas aos ciclistas, ou pelo uso de versões elétricas que não ferem o título de meio de transporte sustentável, em contraposição às versões motorizadas, que são poluentes. Mas mais do que isso, parece haver um certo “movimento” para despertar o interesse das pessoas pela bicicleta que começa a não ser mais vista apenas como um brinquedo ou modalidade desportiva.

“Percebemos que o interesse tem aumentado a cada passeio”, comenta Ricardo. Quanto ao item segurança, ele é taxativo: “o ciclista tem que respeitar mais, também. E utilizar os equipamentos necessários, a começar pelo capacete”.

Se a topografia da cidade não colabora muito para se utilizar a bicicleta com maior frequência, dá para se buscar rotas alternativas, como a ciclovia da Radial Leste, que sai do metrô Tatuapé e chega até o Metrô Itaquera. Profundo conhecedor das vias da região, Rogério lembra que o Parque da Mooca é um local apropriado para passeios de bicicleta com a família, além do Parque Ecológico Lydia Natalizio Diogo, em Vila Prudente, que possui um entorno que favorece o deslocamento. Outra dica é a ciclorrota, um percurso de aproximadamente 8 km que sai do Clube Escola Mooca, na Rua Taquari, e percorre algumas vias da região, até o Sesc Belenzinho.

Acompanhando esse dinamismo das atividades e do interesse crescente pelo uso da bicicleta no dia a dia, em breve o site da RVS Bike irá disponibilizar um boletim informativo diário de tudo que acontece no mundo das bikes, além de tudo o que acontece na Mooca e região, porque seus proprietários entendem que foi essa integração com o bairro e seus moradores que levou a empresa ao sucesso, ao promover qualidade de vida através do esporte e lazer.